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CRISE HÍDRICA: bacias hidrográficas do Cerrado estão ameaçadas

Crescimento populacional e a falta de chuvas são os principais problemas; uso dos recursos hídricos na região passa de 40%, índice considerado crítico


2/1/2017

Barragem do Rio Descoberto
Pai e filho andam por um caminho aberto pela seca. Matusalém de Brito Santiago(foto abaixo), 38 anos, e o pequeno Diogo, 5, procuram pelo cavalo de nome Ruivo que fugiu de madrugada da chácara da família, próxima à Barragem do Descoberto, no Distrito Federal. “É um animal bonito, tem o corpo marrom e o focinho branco”, descreve Diogo. O ambiente seco por onde caminham tem troncos caídos e retorcidos e o calor embaraça a visão, o que dificulta a busca. Mas esse cenário é novo nos arredores do Rio Descoberto, ainda mais em pleno mês de dezembro, quando as chuvas costumam ganhar os céus do Cerrado. “Vivo com a minha família nesta região há mais de 30 anos. Sempre o Descoberto retrocedeu na seca, mas, desta vez, eu olho e não acredito que (o nível) baixou tanto”, comenta.

No campo arenoso típico de fundo de rio, Diogo pode correr, desbravar e tentar encontrar o cavalo perdido. Mas a cena preocupa Matusalém. “A gente olha para as crianças e fica preocupado com essa crise hídrica que estamos vivendo”, desabafa o projetista. A baixa das águas do Rio Descoberto, responsável por quase 65% do abastecimento da capital do país, tornou-se o símbolo da crise hídrica vivida no cerrado brasileiro.

Pela primeira vez na história de Brasília, a população convive, desde o fim de outubro deste ano, com o risco iminente de racionamento e de duras medidas para economia de água, como o pagamento de taxa de contingência e diminuição de vazão em determinadas regiões administrativas para não atrapalhar o abastecimento urbano. Para retratar a situação vivida pelo bioma, o Correio começa, a partir de hoje, uma série de reportagens sobre o tema.

O cerrado sempre foi generoso com quem aposta nele. Foi no cenário de clima quente e solo seco com aspecto de savana que o Brasil expandiu a fronteira agrícola e escreveu a história de interiorização. Recebeu gente de todo o país — atualmente, a região em que o bioma predomina é a casa de mais de 30 milhões de brasileiros. Entretanto, 50 anos depois dessa ocupação maciça, ele começa a apresentar sinais de cansaço. A devastação de quase metade da vegetação nativa, a ocupação desordenada da região e o uso intenso dos recursos naturais ameaçam um de seus bens mais preciosos: a água.

Conhecido como berço das águas, por abrigar nascentes das três maiores bacias hidrográficas da América do Sul (São Francisco, Tocantins e Prata), a força aquífera do cerrado clama por socorro. “O cerrado funciona como um guarda-chuva para as águas brasileiras. A água bate e é distribuída para o Brasil inteiro. Por isso, a escassez no local tem repercussão em todo território nacional e a preservação ganha mais importância”, analisa Jorge Werneck, pesquisador da Embrapa Cerrados e presidente do Comitê da Bacia do Paranoá. O cerrado contribui, em diferentes proporções, para a formação de pelo menos oito bacias hidrográficas brasileiras.

PRESSÃO

Antes restritos aos roteiros de filmes de ficção futuristas, os potenciais conflitos pelo uso da água começam a se transformar em uma triste realidade no cerrado brasileiro. O bioma sofre duas pressões principais: o abastecimento humano e a irrigação intensiva. Mapeamentos feitos pela Agência Nacional de Águas (ANA) mostram que as bacias de regiões próximas aos centros urbanos estão sobrecarregadas, é o caso do Rio Descoberto, entre Goiás e o Distrito Federal, e o Rio Meia Ponte, localizado na região metropolitana de Goiânia. As reservas com intenso uso de irrigação também estão à beira de colapso hídrico, como a bacia do São Marcos, entre as cidades de Cristalina (GO) e Paracatu (MG), e a do Rio Preto, no DF.

As bacias do cerrado estão operando no limite. O uso cresce e a vazão dos rios diminui. Enquanto as retiradas de água em todo o Brasil aumentaram, em média, 28,8%, no bioma o crescimento foi de quase o dobro. No Tocantins-Araguaia, por exemplo, foi de 73%. No São Francisco, 54%. O resultado do uso intenso, combinado à diminuição de chuvas na região, começa a ser sentido pela população. A terra rachada pelo calor do sol, os passos a mais para se chegar até a água e o caminho arenoso passaram a fazer parte do cenário da região. O reservatório de Serra da Mesa, localizado nos municípios de Uruaçu (GO) e Niquelândia (GO), secou. Em setembro de 2015, contava com 24,6% da capacidade. Um ano depois, chegou a 10,37%, para desespero dos setores turístico, agrícola e de pesca locais.




fonte: Correio Braziliense, 26/12/2016

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